Intoxicação Medicamentosa

 Intoxicação Medicamentosa


A intoxicação medicamentosa é um grave problema de saúde pública, responsável por milhares de atendimentos de emergência, internações hospitalares e óbitos anualmente. No Brasil, onde o acesso a medicamentos é facilitado e a automedicação generalizada, a intoxicação por medicamentos é uma das principais causas de intoxicação exógena.

O paracetamol é uma das principais causas de intoxicação medicamentosa no mundo, sendo responsável por aproximadamente 50% dos casos de insuficiência hepática aguda nos Estados Unidos. Em doses terapêuticas (até 4g/dia em adultos), é seguro; em superdosagem, pode causar hepatotoxicidade grave e fatal . O risco é particularmente alto em superdosagens acidentais (quando o paciente desconhece a presença do fármaco em múltiplas formulações) ou intencionais.

Os anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs) são outra causa frequente de intoxicação. Em superdosagem aguda, manifestam-se por náuseas, vômitos, dor abdominal, sonolência e, raramente, convulsões e insuficiência renal. O uso crônico em doses elevadas pode causar toxicidade gastrointestinal (úlceras, sangramentos), renal e cardiovascular.

A dipirona, embora segura em doses terapêuticas, pode causar intoxicação aguda com náuseas, vômitos, dor abdominal, tontura e, em casos graves, convulsões e coma. O risco de agranulocitose, embora raro, é uma preocupação com o uso prolongado.

Os benzodiazepínicos e outros depressores do sistema nervoso central são frequentemente envolvidos em intoxicações, isoladamente ou em associação com álcool. A depressão respiratória é a complicação mais temida.

Os opioides, particularmente em associação com álcool ou benzodiazepínicos, causam depressão respiratória grave, podendo levar ao óbito. A naloxona é o antídoto específico.

Os medicamentos cardiovasculares (digitálicos, betabloqueadores, bloqueadores de canais de cálcio) também podem causar intoxicações graves, com manifestações cardiovasculares (bradicardia, hipotensão, arritmias) e neurológicas.

Os psicofármacos (antidepressivos, antipsicóticos) são frequentemente utilizados em tentativas de autoextermínio, com risco de toxicidade cardíaca (tricíclicos), convulsões e arritmias.

O tratamento da intoxicação medicamentosa inclui medidas de suporte, descontaminação gastrointestinal (carvão ativado, lavagem gástrica), administração de antídotos específicos (N-acetilcisteína para paracetamol, naloxona para opioides, flumazenil para benzodiazepínicos – com cautela) e, em casos graves, técnicas de remoção extracorpórea.

A prevenção da intoxicação medicamentosa inclui: uso racional de medicamentos, respeito às doses e horários prescritos, armazenamento seguro fora do alcance de crianças, orientação sobre os riscos da automedicação e descarte adequado de medicamentos vencidos.

A PL 2158/23, ao permitir farmácias em supermercados, pode aumentar o risco de intoxicações medicamentosas, especialmente em crianças (acesso acidental) e em adultos (uso inadequado de múltiplos medicamentos). A ausência de orientação farmacêutica qualificada agrava este risco.

Defender a prevenção da intoxicação medicamentosa é defender a educação da população, o armazenamento seguro e a orientação profissional qualificada. É assegurar que o acesso a medicamentos não se converta em risco à vida.

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