Medicamentos e Cuidados Paliativos

 Medicamentos e Cuidados Paliativos


Os cuidados paliativos constituem uma abordagem que visa melhorar a qualidade de vida de pacientes e familiares diante de doenças que ameaçam a continuidade da vida, por meio da prevenção e alívio do sofrimento. O uso de medicamentos em cuidados paliativos difere da prática convencional por seus objetivos, prioridades e princípios éticos.

O controle da dor é o pilar dos cuidados paliativos. A Escada Analgésica da OMS orienta o tratamento: degrau 1 (dor leve), analgésicos não opioides (paracetamol, dipirona, AINEs); degrau 2 (dor moderada), opioides fracos (codeína, tramadol); degrau 3 (dor intensa), opioides fortes (morfina, oxicodona, fentanila, metadona). A morfina é o opioide de escolha por sua eficácia, variedade de apresentações e baixo custo.

O manejo de sintomas além da dor é igualmente importante. A dispneia, comum em doenças avançadas, pode ser aliviada com opioides (morfina), oxigenioterapia e medidas não farmacológicas. As náuseas e vômitos podem ser controlados com antieméticos de diferentes classes (metoclopramida, haloperidol, ondansetrona), conforme a causa.

A obstipação intestinal é efeito adverso quase universal dos opioides e deve ser sistematicamente prevenida com laxantes (estimulantes + osmóticos). A síndrome de obstrução intestinal maligna requer abordagem especializada.

O delirium, comum em pacientes terminais, pode ser causado por múltiplos fatores: doença, medicamentos (opioides, corticosteroides), desidratação, infecção. O manejo inclui tratar causas reversíveis e, quando necessário, antipsicóticos (haloperidol) para controle de agitação.

A ansiedade e depressão em pacientes paliativos podem ser manejadas com psicoterapia e, quando indicado, antidepressivos (ISRS) e ansiolíticos (benzodiazepínicos de curta ação). O suporte emocional é fundamental.

A síndrome da anorexia-caquexia é comum em doenças avançadas. Corticosteroides podem melhorar o apetite e a sensação de bem-estar, mas com efeitos adversos a longo prazo. Progestágenos (acetato de megestrol) podem ser utilizados.

As secreções respiratórias terminais ("chocalho da morte") podem ser reduzidas com anticolinérgicos (escopolamina, atropina). A família deve ser orientada sobre a natureza deste sintoma e sobre o fato de que não causa desconforto significativo ao paciente.

Os princípios éticos em cuidados paliativos incluem: respeito à autonomia do paciente, beneficência, não maleficência e justiça. A sedação paliativa, utilizada em situações de sofrimento refratário, deve ser diferenciada da eutanásia (proibida no Brasil).

A via de administração de medicamentos em paliativos deve ser a menos invasiva possível, preferindo-se a via oral enquanto factível. Quando a via oral está comprometida, vias subcutânea (muito útil), transdérmica (fentanila, buprenorfina), retal e, em último caso, intravenosa podem ser utilizadas.

A comunicação com o paciente e família é essencial. Explicar os objetivos do tratamento, os possíveis efeitos adversos e o plano de cuidados, ouvindo e respeitando as preferências do paciente, é parte integrante da terapêutica.

A PL 2158/23, ao permitir farmácias em supermercados, não se relaciona diretamente com cuidados paliativos, que são realizados predominantemente em ambiente hospitalar, domiciliar ou em instituições especializadas. No entanto, o acesso a medicamentos essenciais para paliação (como morfina oral) pode ser afetado por políticas de controle que, embora necessárias, não devem dificultar o acesso de pacientes que deles necessitam.

Defender o uso racional de medicamentos em cuidados paliativos é assegurar que o alívio do sofrimento seja prioridade, que a dor e outros sintomas sejam adequadamente controlados, e que os princípios éticos norteiem todas as decisões. É reconhecer que, no fim da vida, a qualidade dos dias que restam é mais importante que a quantidade.

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