Medicamentos
e Doenças Raras
O manejo farmacológico de doenças raras apresenta desafios únicos, relacionados à escassez de conhecimento, à dificuldade de diagnóstico, à falta de tratamentos específicos e ao alto custo dos medicamentos disponíveis. Apesar de cada doença rara afetar poucas pessoas, o conjunto delas atinge milhões de brasileiros.
Estima-se que existam entre 6.000 e 8.000 doenças raras, afetando 6-8% da população mundial. No Brasil, seriam cerca de 13 milhões de pessoas. A maioria (80%) tem origem genética, e muitas se manifestam na infância. São doenças frequentemente graves, crônicas, progressivas e sem tratamento curativo.
O diagnóstico de doenças raras é frequentemente tardio, devido ao desconhecimento dos profissionais de saúde e à falta de serviços especializados. O "odisseia diagnóstica" pode durar anos, período em que o paciente fica sem tratamento adequado.
Os medicamentos órfãos, como discutido, são desenvolvidos especificamente para doenças raras. Seu desenvolvimento é incentivado por políticas especiais (exclusividade de mercado, assistência regulatória diferenciada), mas o custo por paciente é extremamente elevado.
A incorporação de medicamentos órfãos ao SUS é avaliada pela Conitec, considerando as evidências disponíveis (muitas vezes limitadas, baseadas em estudos com poucos pacientes) e o impacto orçamentário. A decisão é complexa, envolvendo trade-offs entre beneficiar poucos pacientes e alocar recursos para outras áreas.
Os Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) para doenças raras estabelecem critérios de diagnóstico, tratamento e monitorização. A elaboração destes protocolos é desafiadora pela escassez de evidências robustas.
A judicialização na área de doenças raras é particularmente intensa. Pacientes e familiares, diante da demora na incorporação ou da negativa de fornecimento, recorrem à Justiça. As decisões judiciais, muitas vezes baseadas em necessidades individuais, desorganizam o sistema e consomem recursos.
A pesquisa em doenças raras no Brasil é incipiente, mas há potencial, dada a prevalência de doenças genéticas raras na população e a existência de grupos de pesquisa qualificados. O Registro Brasileiro de Doenças Raras é iniciativa importante para conhecer a realidade nacional.
A participação de pacientes e familiares na defesa de políticas para doenças raras tem sido fundamental. Associações de pacientes pressionam por maior acesso a tratamentos, participam de consultas públicas da Conitec e colaboram com a pesquisa clínica.
O apoio multiprofissional a pacientes com doenças raras é essencial. Além do tratamento farmacológico, necessitam de suporte psicológico, fisioterápico, nutricional e social. O farmacêutico pode contribuir com orientação sobre medicamentos e acompanhamento de efeitos adversos.
A PL 2158/23, ao permitir farmácias em supermercados, não se relaciona com medicamentos para doenças raras, que continuarão sendo fornecidos predominantemente pelo CEAF em farmácias especializadas. No entanto, a existência destas doenças e a luta de seus portadores por acesso a tratamentos lembram-nos que o sistema de saúde deve ser capaz de atender a todos, mesmo os poucos.
Defender o acesso a medicamentos para doenças raras é defender que nenhum paciente seja abandonado pelo sistema de saúde. É assegurar que a incorporação de tecnologias considere não apenas custo, mas também o impacto na qualidade de vida e a dignidade dos pacientes. É, fundamentalmente, reconhecer que raro não é menos importante.
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