Medicamentos e
Exames Laboratoriais
A interação entre medicamentos e exames laboratoriais é frequentemente negligenciada, mas pode levar a erros de interpretação e condutas clínicas inadequadas. Fármacos podem interferir nos exames por mecanismos farmacológicos (alterando o parâmetro medido) ou analíticos (interferindo na reação química do teste).
O conhecimento destas interferências é essencial para a correta interpretação dos resultados e para orientar pacientes sobre a necessidade de suspender ou manter medicamentos antes da coleta.
Os diuréticos (tiazídicos, de alça) podem causar hipocalemia, hiperuricemia, hiperglicemia e hiperlipidemia, alterando resultados de exames. A interpretação deve considerar o uso destes fármacos.
Os anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs) podem aumentar creatinina (por redução da filtração glomerular) e potássio, e diminuir sódio. Podem também causar elevação de transaminases.
Os inibidores da ECA e BRA podem aumentar creatinina (particularmente no início do tratamento) e potássio. A elevação da creatinina, se moderada e estável, pode refletir o efeito hemodinâmico esperado, não necessariamente lesão renal.
Os anticoncepcionais hormonais podem alterar vários exames: função hepática (aumento de fosfatase alcalina, γ-GT), perfil lipídico (aumento de triglicerídeos), tireoidiano (aumento de TBG, com aumento de T4 total, mas T4 livre normal), e glicemia (pode aumentar).
Os corticosteroides podem elevar glicemia, colesterol, triglicerídeos e sódio, e reduzir potássio e cálcio. Podem também suprimir o eixo HHA, alterando cortisol sérico.
Os antipsicóticos, particularmente a clozapina e a olanzapina, podem elevar glicemia, colesterol e triglicerídeos, e causar ganho de peso que afeta múltiplos parâmetros.
Os antidepressivos podem alterar diversos exames, mas as interferências são menos específicas.
Os anticoagulantes (varfarina) prolongam o tempo de protrombina (TP) e a relação normatizada internacional (INR), que são justamente os parâmetros monitorizados para avaliar seu efeito. A interpretação é direta.
A biotina (vitamina B7), presente em suplementos e em altas doses em alguns tratamentos (queda de cabelo, unhas fracas), pode interferir em imunoensaios que utilizam biotina-estreptavidina, causando resultados falso-altos ou falso-baixos em hormônios tireoidianos, troponina, PSA e outros.
O paracetamol, em altas doses, pode interferir na medida de glicose por alguns métodos (glicose oxidase), causando resultados falso-elevados.
A levodopa, usada no Parkinson, pode interferir na medida de catecolaminas e metanefrinas.
A metildopa, anti-hipertensivo, pode causar teste de Coombs positivo e interferir na medida de creatinina e ácido úrico.
A orientação ao paciente sobre preparo para exames deve incluir: informações sobre necessidade de jejum (tempo, permitir ou não água), suspensão ou manutenção de medicamentos (nunca suspender sem orientação médica), e registro de todos os medicamentos em uso (incluindo fitoterápicos e suplementos) para que o laboratório e o médico possam considerar possíveis interferências.
A PL 2158/23, ao permitir farmácias em supermercados, não se relaciona diretamente com exames laboratoriais, mas o ambiente de banalização do acesso a medicamentos pode comprometer a percepção de que o uso destes produtos pode interferir em resultados de exames, levando a diagnósticos incorretos.
Defender o conhecimento sobre interações medicamento-exame laboratorial é assegurar que cada resultado seja interpretado à luz da farmacoterapia do paciente. É orientar adequadamente sobre o preparo para exames. É, fundamentalmente, promover a integração entre farmácia e laboratório para a segurança do paciente.
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