Medicamentos e Fitoterápicos

 Medicamentos e Fitoterápicos




A interação entre medicamentos convencionais e fitoterápicos é área de crescente preocupação, dado o uso generalizado de produtos "naturais" pela população e a percepção equivocada de que são inofensivos. O conhecimento destas interações é essencial para a segurança do paciente.

A erva-de-são-joão (Hypericum perforatum), utilizada para depressão leve, é o fitoterápico com maior potencial de interações. É um potente indutor de CYP3A4, CYP2C9, CYP2C19 e da glicoproteína-P, reduzindo os níveis e a eficácia de inúmeros fármacos: anticoncepcionais hormonais (risco de falha e gravidez), anticoagulantes (varfarina, DOACs), antirretrovirais (indinavir, outros), imunossupressores (ciclosporina, tacrolimo), estatinas (sinvastatina, atorvastatina), bloqueadores de canais de cálcio, benzodiazepínicos, e muitos outros.

O ginkgo biloba, utilizado para memória, tem efeito antiplaquetário e pode aumentar o risco de sangramento quando associado a anticoagulantes (varfarina) ou antiagregantes (AAS, clopidogrel). Relatos de hemorragia intracraniana com a associação justificam cautela. O ginkgo também pode interagir com anticonvulsivantes (reduzindo eficácia) e com inibidores da MAO (aumentando risco de crise hipertensiva).

O ginseng (Panax ginseng) pode reduzir o efeito da varfarina (mecanismo incerto) e potencializar os efeitos de estimulantes (cafeína, anfetaminas), causando hipertensão e taquicardia. Pode também interagir com hipoglicemiantes, alterando o controle glicêmico.

O alho (Allium sativum), em altas doses, tem efeito antiplaquetário e pode aumentar o risco de sangramento com anticoagulantes e antiagregantes. Deve ser suspenso antes de cirurgias. Pode também reduzir a eficácia de antirretrovirais (saquinavir).

O gengibre (Zingiber officinale) tem efeito antiplaquetário e pode aumentar o risco de sangramento, particularmente em altas doses e em associação com anticoagulantes.

A cúrcuma (Curcuma longa) pode potencializar o efeito de anticoagulantes e antiagregantes. Em altas doses, há relatos de hepatotoxicidade.

O kava-kava (Piper methysticum), utilizado para ansiedade, tem potencial hepatotóxico e pode interagir com outros fármacos hepatotóxicos. Seu uso é restrito em vários países.

A valeriana (Valeriana officinalis), utilizada para insônia, potencializa a sedação de benzodiazepínicos e outros depressores do SNC.

A equinácea (Echinacea purpurea), utilizada para prevenção e tratamento de resfriados, pode induzir o CYP3A4, reduzindo a eficácia de fármacos metabolizados por esta via, embora o efeito seja menos pronunciado que com erva-de-são-joão.

A orientação a pacientes sobre uso de fitoterápicos deve incluir: informação de que "natural" não significa "seguro", necessidade de informar todos os profissionais de saúde sobre o uso destes produtos, cautela com interações, e aquisição apenas de produtos com registro na ANVISA.

A PL 2158/23, ao permitir farmácias em supermercados, amplia o acesso a fitoterápicos em ambientes com mínima orientação profissional. A percepção de que "natural" é inofensivo pode levar a interações perigosas com medicamentos convencionais.

Defender o conhecimento sobre interações medicamento-fitoterápico é assegurar que cada paciente seja informado sobre os riscos e orientado a comunicar o uso destes produtos aos profissionais de saúde. É promover a integração segura entre medicina convencional e tradicional.

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