Medicamentos e Hepatites Virais

 Medicamentos e Hepatites Virais


O tratamento das hepatites virais B e C avançou significativamente nas últimas décadas, com o desenvolvimento de antivirais de ação direta (DAA) que permitem a cura da hepatite C em mais de 95% dos casos e o controle efetivo da hepatite B. O manejo farmacológico destas condições exige conhecimento especializado e monitorização cuidadosa.

Na hepatite B, os objetivos do tratamento são suprimir a replicação viral, prevenir progressão para cirrose e carcinoma hepatocelular, e melhorar a sobrevida. Os fármacos disponíveis incluem interferon peguilado (imunomodulador) e análogos de nucleosídeos/nucleotídeos (entecavir, tenofovir).

O entecavir é um potente inibidor da transcriptase reversa do HBV, com alta barreira genética à resistência. É bem tolerado, com poucos efeitos adversos. É primeira linha para a maioria dos pacientes.

O tenofovir (disoproxil fumarato – TDF; ou alafenamida – TAF) também é potente inibidor da polimerase do HBV. TDF pode causar nefrotoxicidade e redução da densidade mineral óssea; TAF tem melhor perfil de segurança renal e ósseo.

O tratamento da hepatite B é geralmente de longo prazo, muitas vezes por toda a vida. A adesão é crítica para prevenir resistência e progressão da doença.

Na hepatite C, os antivirais de ação direta (DAA) revolucionaram o tratamento. Atuam inibindo proteínas virais específicas (protease NS3/4A, polimerase NS5B, proteína NS5A). Combinações de DAA (sofosbuvir/daclatasvir, sofosbuvir/velpatasvir, glecaprevir/pibrentasvir, etc.) alcançam taxas de cura (resposta virológica sustentada – RVS) superiores a 95%.

O tratamento da hepatite C é de curta duração (8-12 semanas), com poucos efeitos adversos. Os principais desafios são o custo (embora incorporado ao SUS) e a necessidade de monitorização de interações medicamentosas.

As interações medicamentosas com DAA são clinicamente relevantes. Muitos DAA são metabolizados pelo CYP450 e podem interagir com antirretrovirais (particularmente em coinfectados HIV/HCV), tuberculostáticos (rifampicina), anticonvulsivantes (carbamazepina, fenitoína), e outros.

A triagem para hepatites B e C é recomendada para populações de risco e, em alguns países, para toda a população adulta. O diagnóstico precoce permite tratamento antes do desenvolvimento de complicações.

A prevenção da hepatite B é feita por vacina, disponível no SUS para todas as faixas etárias. Não há vacina para hepatite C.

A coinfeção HIV/HBV ou HIV/HCV é frequente e adiciona complexidade ao manejo, exigindo coordenação entre especialistas e atenção a interações medicamentosas.

A armacovigilância em hepatites virais é importante para monitorar efeitos adversos de longo prazo dos antivirais e para detectar resistência emergente.

A PL 2158/23, ao permitir farmácias em supermercados, não se relaciona com medicamentos para hepatites virais, que são fornecidos pelo CEAF em farmácias especializadas. No entanto, a possibilidade de cura da hepatite C e de controle da hepatite B lembra-nos a importância do acesso a tratamentos baseados em evidências.

Defender o uso racional de medicamentos para hepatites virais é assegurar que cada paciente tenha acesso ao diagnóstico e tratamento adequados, com monitorização da resposta e manejo de efeitos adversos e interações. É promover a prevenção (vacina para HBV) e a cura (DAA para HCV) como estratégias de saúde pública.

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