Medicamentos e HIV/Aids
O tratamento da infecção pelo HIV revolucionou-se nas últimas décadas, transformando uma doença fatal em condição crônica manejável. A terapia antirretroviral (TARV) é a base deste sucesso, mas seu uso racional exige conhecimento aprofundado da farmacologia, das interações e dos efeitos adversos.
A TARV combina geralmente três fármacos de pelo menos duas classes diferentes. As classes principais são: inibidores da transcriptase reversa análogos de nucleosídeos (ITRN – tenofovir, lamivudina, abacavir, zidovudina), inibidores da transcriptase reversa não análogos de nucleosídeos (ITRNN – efavirenz, nevirapina), inibidores da protease (IP – atazanavir, darunavir, lopinavir), inibidores da integrase (INI – dolutegravir, raltegravir), e inibidores de fusão (enfuvirtida).
O mecanismo de ação dos antirretrovirais visa bloquear etapas do ciclo de replicação do HIV: entrada na célula, transcrição reversa, integração ao genoma celular, processamento de proteínas virais e montagem de novas partículas.
Os ITRN atuam como inibidores competitivos da transcriptase reversa. Tenofovir pode causar nefrotoxicidade e redução da densidade mineral óssea. Abacavir está associado a reação de hipersensibilidade em portadores do HLA-B*5701 (teste obrigatório antes do uso). Zidovudina causa mielossupressão.
Os ITRNN (efavirenz, nevirapina) inibem a transcriptase reversa por ligação direta. Efavirenz causa efeitos adversos no sistema nervoso central (tontura, sonolência, pesadelos) que geralmente cedem nas primeiras semanas. Nevirapina pode causar hepatotoxicidade e reações cutâneas graves.
Os inibidores da protease atuam bloqueando a enzima responsável pelo processamento de proteínas virais. São metabolizados pelo CYP3A4, sendo suscetíveis a inúmeras interações medicamentosas. Podem causar distúrbios metabólicos (dislipidemia, lipodistrofia, resistência à insulina).
Os inibidores da integrase (dolutegravir, raltegravir) são atualmente a primeira linha de tratamento, por sua eficácia, segurança e menor potencial de interações. Dolutegravir está associado a aumento do risco de defeitos do tubo neural quando usado na concepção, exigindo cautela em mulheres com potencial reprodutivo.
A adesão à TARV é crítica para o sucesso do tratamento. A não adesão leva à falha virológica, seleção de mutações de resistência e progressão da doença. Fatores como número de comprimidos, frequência de doses, efeitos adversos e questões psicossociais influenciam a adesão.
As interações medicamentosas com antirretrovirais são numerosas e clinicamente relevantes. Inibidores da protease e ITRNN, por afetarem o CYP450, interagem com estatinas (risco de miopatia), anticoncepcionais (redução de eficácia), tuberculostáticos (rifampicina reduz níveis de muitos ARV), e muitos outros.
A profilaxia pré-exposição (PrEP) com tenofovir/emtricitabina reduz significativamente o risco de aquisição do HIV em populações de alto risco. A profilaxia pós-exposição (PEP) deve ser iniciada o mais rápido possível (até 72 horas) após exposição de risco.
A farmacovigilância em HIV é essencial para monitorar efeitos adversos de longo prazo e novas interações. A coinfecção com hepatites B e C, comuns em pacientes com HIV, adiciona complexidade ao manejo.
A PL 2158/23, ao permitir farmácias em supermercados, não se relaciona com antirretrovirais, fornecidos gratuitamente pelo SUS em serviços especializados. No entanto, a complexidade do tratamento do HIV contrasta com a simplificação que o projeto representa para os medicamentos em geral.
Defender o uso racional de antirretrovirais é assegurar que cada paciente tenha acesso ao regime mais adequado, com monitorização da adesão, da eficácia virológica e dos efeitos adversos. É promover a prevenção de novas infecções e o cuidado integral às pessoas vivendo com HIV.
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