Medicamentos e População em Situação de Rua

 Medicamentos e População
em Situação de Rua


A população em situação de rua enfrenta múltiplas vulnerabilidades que impactam o acesso e o uso de medicamentos. Condições precárias de vida, dificuldade de armazenamento, baixa adesão a tratamentos de longo prazo, e alta prevalência de transtornos mentais e uso de substâncias são desafios que exigem abordagem específica.

Estima-se que haja mais de 200 mil pessoas em situação de rua no Brasil, população que cresceu significativamente nos últimos anos. Esta população tem menor acesso a serviços de saúde e maior prevalência de doenças crônicas, infecciosas e transtornos mentais.

O armazenamento de medicamentos é um desafio crítico para pessoas em situação de rua. A falta de local seguro, as condições de temperatura e umidade inadequadas, e o risco de perda ou roubo comprometem a qualidade e a continuidade do tratamento.

A adesão a tratamentos de longo prazo é extremamente baixa nesta população. Fatores como instabilidade, falta de rotina, priorização de necessidades imediatas (alimentação, abrigo), e transtornos mentais não tratados contribuem para a não adesão.

A alta prevalência de transtornos mentais (depressão, psicose, transtorno bipolar) e de uso de substâncias (álcool, crack, cocaína) nesta população adiciona complexidade ao manejo farmacológico. Interações entre psicofármacos e substâncias de abuso são frequentes.

As doenças infecciosas (tuberculose, HIV, hepatites, IST) são mais prevalentes e frequentemente diagnosticadas tardiamente. O tratamento da TB, que exige adesão por 6 meses, é particularmente desafiador. O Tratamento Diretamente Observado (TDO) deve ser adaptado à realidade desta população.

As doenças crônicas (hipertensão, diabetes) são frequentemente não diagnosticadas ou não tratadas. Quando diagnosticadas, o controle é dificultado pela falta de acesso regular a medicamentos e pela impossibilidade de seguir orientações dietéticas.

A violência e o estigma são barreiras adicionais ao acesso a serviços de saúde. Pessoas em situação de rua frequentemente relatam discriminação em serviços de saúde, o que as afasta do cuidado.

Os Consultórios na Rua são equipes multiprofissionais que realizam atenção básica para a população em situação de rua, incluindo ações de assistência farmacêutica. A dispensação de medicamentos nestes contextos deve considerar as condições de armazenamento e a capacidade de adesão.

A redução de danos é a abordagem recomendada para o manejo do uso de substâncias nesta população. Intervenções que visam reduzir danos sem exigir abstinência imediata são mais realistas e efetivas.

A PL 2158/23, ao permitir farmácias em supermercados, não se relaciona com a população em situação de rua, que tem acesso a medicamentos predominantemente por meio do SUS e de ações específicas. No entanto, a reflexão sobre esta população lembra-nos que o acesso a medicamentos não é apenas uma questão de disponibilidade, mas de condições concretas para seu uso seguro e efetivo.

Defender o cuidado farmacêutico para a população em situação de rua é assegurar que as estratégias de saúde considerem sua realidade, que os medicamentos sejam dispensados com orientação adequada às suas condições, e que o estigma e a discriminação sejam combatidos. É reconhecer que a saúde é direito de todos, independentemente de onde vivam.

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