Medicamentos e População Quilombola

 Medicamentos e População Quilombola


As comunidades quilombolas, descendentes de africanos escravizados que resistiram à escravidão, têm direitos territoriais e culturais reconhecidos pela Constituição Federal. O acesso a medicamentos nestas comunidades é marcado por desigualdades históricas e desafios específicos.

Estima-se que existam mais de 3.000 comunidades quilombolas no Brasil, com população superior a 1 milhão de pessoas. Estas comunidades enfrentam maior vulnerabilidade social, piores indicadores de saúde e menor acesso a serviços.

A Política Nacional de Saúde Integral da População Negra, instituída em 2009, reconhece as desigualdades raciais em saúde e estabelece diretrizes para sua superação, incluindo o acesso a medicamentos.

As condições de saúde nas comunidades quilombolas são marcadas por alta prevalência de doenças crônicas (hipertensão, diabetes), doenças infecciosas (tuberculose, hanseníase), desnutrição, e agravos relacionados ao trabalho (intoxicações por agrotóxicos, acidentes).

O acesso a serviços de saúde é frequentemente limitado, com unidades básicas distantes e de difícil acesso. A falta de transporte e as más condições das estradas agravam o problema.

A assistência farmacêutica em comunidades quilombolas enfrenta os mesmos desafios de outras populações rurais e ribeirinhas: dificuldade de transporte e armazenamento, irregularidade no abastecimento, e falta de orientação profissional.

O racismo institucional e a discriminação nos serviços de saúde são barreiras adicionais ao acesso. Pessoas quilombolas podem relatar tratamento diferenciado e desrespeitoso, o que as afasta do cuidado.

O conhecimento tradicional sobre plantas medicinais é parte da cultura quilombola e deve ser valorizado e integrado às práticas de saúde. A fitoterapia pode ser uma alternativa importante, desde que com qualidade e segurança.

A participação social, por meio das lideranças quilombolas e dos conselhos locais de saúde, é fundamental para que as políticas de saúde considerem as necessidades específicas destas comunidades.

A farmacovigilância em comunidades quilombolas é incipiente. É importante monitorar possíveis diferenças na resposta a medicamentos relacionadas à ancestralidade genética africana, embora os dados sejam limitados.

A PL 2158/23, ao permitir farmácias em supermercados, não se relaciona com a realidade quilombola, onde o acesso a medicamentos depende do SUS e de políticas específicas. No entanto, a reflexão sobre estas comunidades lembra-nos que a equidade em saúde exige ações afirmativas para superar desigualdades históricas.

Defender o acesso a medicamentos para a população quilombola é reconhecer o direito à saúde como parte da reparação histórica. É assegurar que as políticas de saúde considerem as especificidades destas comunidades, que o racismo seja combatido nos serviços, e que a cultura e o conhecimento tradicional sejam respeitados.

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