Medicamentos em Geriatria
O uso de medicamentos em geriatria é um dos maiores desafios da farmacologia contemporânea, dado o envelhecimento populacional e a elevada prevalência de doenças crônicas e polifarmácia nesta faixa etária. As alterações fisiológicas do envelhecimento modificam profundamente a farmacocinética e a farmacodinâmica dos medicamentos, exigindo abordagem individualizada.
As alterações farmacocinéticas no idoso são múltiplas. A absorção gastrointestinal pode estar reduzida por hipocloridria e diminuição da motilidade, embora a extensão total da absorção raramente seja comprometida. A distribuição altera-se pelo aumento da massa gordurosa e redução da água corporal total. Fármacos lipossolúveis apresentam maior volume de distribuição e meia-vida prolongada; fármacos hidrossolúveis, maior concentração inicial.
A redução da albumina sérica, comum em idosos, aumenta a fração livre de fármacos altamente ligados a proteínas, como fenitoína e varfarina, potencializando seus efeitos e toxicidade. A ligação a proteínas também pode ser afetada por doenças crônicas.
O metabolismo hepático declina progressivamente, com redução da massa hepática e do fluxo sanguíneo esplâncnico. A atividade das enzimas do citocromo P450 diminui, prolongando a meia-vida de fármacos metabolizados por estas vias.
A excreção renal sofre o declínio mais significativo e previsível. A taxa de filtração glomerular reduz-se aproximadamente 1% ao ano a partir dos 40 anos, comprometendo a eliminação de fármacos como digoxina, lítio, aminoglicosídeos e muitos anti-hipertensivos.
A farmacodinâmica também se altera. Idosos apresentam maior sensibilidade a determinados fármacos, mesmo com concentrações plasmáticas terapêuticas. O risco de depressão do sistema nervoso central com benzodiazepínicos e opioides é amplificado. A susceptibilidade a efeitos anticolinérgicos é maior.
A polifarmácia, como discutido, é extremamente prevalente em idosos, com consequências graves. Cada medicamento adicional incrementa o risco de reações adversas e interações. A adesão é comprometida pela complexidade dos regimes.
Os medicamentos potencialmente inapropriados para idosos são identificados por critérios como os de Beers (EUA) e STOPP/START (Europa). A lista inclui benzodiazepínicos, anti-inflamatórios não esteroidais de uso prolongado, anti-histamínicos de primeira geração, e muitos outros.
A desprescrição, processo sistemático de identificação e suspensão de medicamentos desnecessários ou com relação benefício-risco desfavorável, é estratégia fundamental em geriatria. A revisão periódica da farmacoterapia deve considerar objetivos de cuidado, expectativa de vida e preferências do paciente.
As interações medicamentosas em idosos são particularmente relevantes. O uso concomitante de múltiplos fármacos aumenta exponencialmente o risco de interações farmacocinéticas e farmacodinâmicas, com consequências potencialmente graves.
A avaliação da função renal é obrigatória antes da prescrição de qualquer medicamento de eliminação renal. A estimativa da TFG por equações (CKD-EPI, MDRD) deve orientar ajustes posológicos.
A comunicação com o idoso e seus cuidadores é essencial para a segurança. Instruções claras, por escrito, sobre doses, horários e possíveis efeitos adversos devem ser fornecidas. A verificação da compreensão é fundamental.
A PL 2158/23, ao permitir farmácias em supermercados, acende alerta particular para o uso de medicamentos em idosos. A aquisição facilitada de medicamentos isentos de prescrição (AINEs, anti-histamínicos, laxantes) pode introduzir fármacos desnecessários em regimes já complexos, com risco de interações e efeitos adversos.
Defender o uso racional de medicamentos em geriatria é assegurar que cada prescrição considere as alterações fisiológicas do envelhecimento, o perfil de interações, a fragilidade do paciente e a relação benefício-risco individualizada. É promover a desprescrição quando apropriada e a simplificação de regimes. É, fundamentalmente, proteger aqueles que mais se beneficiariam do cuidado qualificado e mais sofreriam com sua ausência.
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