Medicamentos na Lactação
O uso de medicamentos durante a lactação levanta questões sobre os benefícios do tratamento materno e os riscos potenciais para o lactente, equilibrados com os benefícios bem estabelecidos do aleitamento materno. A decisão de amamentar durante o uso de medicamentos deve ser individualizada, considerando as características do fármaco, a idade e saúde do lactente, e a necessidade do tratamento materno.
A transferência de medicamentos para o leite materno ocorre predominantemente por difusão passiva, influenciada por características físico-químicas do fármaco: peso molecular, lipossolubilidade, grau de ionização e ligação a proteínas plasmáticas. Fármacos com baixo peso molecular, alta lipossolubilidade, baixa ionização e baixa ligação proteica tendem a ser mais excretados no leite.
A dose relativa no lactente (Dose Relativa Infantil – DRI) é o parâmetro mais utilizado para estimar o risco. É calculada pela dose recebida pelo lactente através do leite (mg/kg/dia) dividida pela dose terapêutica usual para lactentes (quando conhecida) ou pela dose materna ajustada para peso. Valores de DRI <10% são geralmente considerados de baixo risco.
A idade do lactente influencia significativamente o risco. Recém-nascidos (especialmente prematuros) têm imaturidade hepática e renal, reduzindo a capacidade de metabolizar e excretar fármacos. Lactentes maiores têm sistemas mais desenvolvidos e maior capacidade de eliminação.
A segurança de muitos medicamentos na lactação é desconhecida, pois lactantes são geralmente excluídas de ensaios clínicos. A informação disponível provém de relatos de caso, estudos observacionais e extrapolações de dados de farmacocinética.
Medicamentos considerados compatíveis com a amamentação, com baixo risco, incluem: paracetamol, ibuprofeno (doses baixas), penicilinas, cefalosporinas, metformina, levotiroxina, anti-histamínicos de segunda geração (loratadina, fexofenadina), e a maioria dos anti-hipertensivos (metoprolol, labetalol, nifedipino, enalapril, captopril).
Medicamentos que requerem cautela ou monitorização do lactente incluem: antidepressivos (ISRS – especialmente fluoxetina, que tem meia-vida longa), benzodiazepínicos (podem causar sedação), anticonvulsivantes (fenobarbital, primidona), e opioides (codeína – evitar, metabolizadores ultrarrápidos de CYP2D6 podem expor lactente a doses tóxicas de morfina).
Medicamentos contraindicados na lactação incluem: antineoplásicos (quimioterapia), substâncias de abuso (cocaína, heroína, maconha), radiofármacos (exigem interrupção temporária da amamentação), lítio (risco de toxicidade), amiodarona (risco de hipotireoidismo no lactente), ergotamina (vasoconstrição, risco de convulsões), e iodo radioativo.
A suspensão temporária da amamentação pode ser necessária durante o uso de certos medicamentos (radiofármacos, alguns quimioterápicos). A mãe pode ordenhar e descartar o leite durante o período de risco, mantendo a produção e retomando a amamentação após a eliminação do fármaco.
A orientação à lactante deve incluir: informações sobre os riscos (quando conhecidos) e a importância de observar o lactente quanto a sinais de efeitos adversos (sedação, irritabilidade, diarreia, erupções cutâneas). A decisão de amamentar durante o tratamento deve ser compartilhada, respeitando a autonomia da mãe.
Recursos de informação sobre segurança de medicamentos na lactação incluem: LactMed (banco de dados do NIH), bulas de medicamentos (com informações limitadas), e serviços de informação sobre medicamentos em centros de referência.
A PL 2158/23, ao permitir farmácias em supermercados, amplia o risco de que lactantes adquiram medicamentos sem orientação sobre sua segurança durante a amamentação. A orientação farmacêutica, no momento da dispensação, é oportunidade crucial para avaliar riscos e recomendar opções mais seguras quando necessário.
Defender o uso racional de medicamentos na lactação é proteger o aleitamento materno, um dos pilares da saúde infantil. É assegurar que a mãe receba o tratamento necessário, com o mínimo de risco para o lactente. É, fundamentalmente, reconhecer que a decisão de medicar durante a amamentação deve ser baseada em informação de qualidade e em diálogo respeitoso com a paciente.
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