O Futuro do SNGPC e a Interoperabilidade dos Sistemas de Saúde

 O Futuro do SNGPC e a
Interoperabilidade dos Sistemas de Saúde


Receituário digital, rastreabilidade e como o farmacêutico pode se preparar


O SNGPC que conhecemos hoje, baseado em transmissão periódica de arquivos XML, receitas físicas com papel carbonado e armários com cadeado inspecionados por agentes que se deslocam presencialmente, é um sistema robusto para o momento em que foi concebido, mas representa apenas um estágio em uma transformação digital muito mais ampla que já está em curso na saúde brasileira. O farmacêutico que compreende o presente com profundidade precisa também antecipar o futuro para manter-se relevante e preparado.

A receita digital é a mudança mais imediata e visível nesse horizonte. O Brasil já possui a infraestrutura legal e tecnológica para o receituário eletrônico: o padrão ICP-Brasil de assinaturas digitais é juridicamente equivalente à assinatura manuscrita, e plataformas de emissão e validação de receitas digitais já operam em diferentes contextos clínicos. A Resolução CFM nº 2.299/2021 e normas complementares do CFF regulamentam a teleconsulta e a prescrição eletrônica, criando o ambiente jurídico para que o papel gradualmente deixe de ser o suporte principal da prescrição médica. Para a farmácia, isso significa que, em um futuro próximo, a validação da receita no balcão não será feita pela inspeção visual de papel e carimbo, mas pela verificação da assinatura digital do prescritor em uma plataforma online, conferindo autenticidade, integridade e validade temporal do documento em segundos.

Esse cenário traz implicações práticas imediatas: farmácias que não atualizarem seus sistemas de gestão para receber e processar receitas digitais ficam fora do novo fluxo de prescrição. Isso impacta não apenas o SNGPC, mas a operação geral do estabelecimento. Investir em softwares que já estejam desenvolvendo compatibilidade com padrões de receituário digital é uma decisão estratégica para os próximos dois a cinco anos.

A modernização do próprio SNGPC é pauta dentro da ANVISA. As discussões envolvem a migração de um modelo de transmissão periódica em lote para um modelo de rastreabilidade em tempo real, onde cada movimentação de produto controlado é registrada instantaneamente na base da ANVISA, em vez de ser consolidada e enviada mensalmente. Esse modelo já é realidade em sistemas semelhantes de outros países e eliminaria a janela de tempo em que irregularidades podem ocorrer sem detecção. A implantação plena desse modelo exigirá infraestrutura tecnológica robusta nas farmácias e integração com o Sistema de Informações Hospitalares e com o prontuário eletrônico do paciente.

O Sistema Nacional de Rastreamento de Medicamentos (IHRM - Identificação Humana de Rastreamento de Medicamentos, no âmbito da Rede Nacional de Dados em Saúde) é outra frente de evolução que impactará diretamente as farmácias. O objetivo é rastrear cada embalagem de medicamento, do fabricante ao paciente final, por meio de códigos bidimensionais (Data Matrix) impressos nas embalagens secundárias. Para os medicamentos controlados, isso significará que o lote não será mais uma informação digitada manualmente pela equipe, será lido por scanner e validado automaticamente contra o histórico de distribuição do produto, eliminando erros de digitação e dificultando desvios.

O farmacêutico que deseja manter-se atualizado nesse cenário de transformação tem à sua disposição ferramentas acessíveis: o portal da ANVISA publica todas as consultas públicas sobre novas regulamentações, permitindo acompanhar e inclusive participar dos debates antes que as normas sejam publicadas. O CFF e os CRFs promovem eventos e publicam materiais de atualização profissional. Associações como a ABRAFARMA e a FEBRAFAR oferecem capacitações técnicas e fóruns de discussão. A atualização contínua não é opcional para quem exerce responsabilidade técnica em farmácia comercial, é condição de permanência e excelência em uma profissão que é, em sua essência, guardiã da segurança do uso de medicamentos pela população.


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